terça-feira, 16 de setembro de 2008

Experiências incompletas

Ontem, na faculdade, o professor de português estava contando as experiências que ele passa dando aula para crianças excepcionais. Logo na primeira aula, ele pede para os alunos desenharem a casa deles, e as pessoas que moram lá. O que acontece é que geralmente as crianças colocam dentro da casa algumas pessoas e do lado de fora a pessoa que provavelmente tem vergonha deles.

Uma das crianças, depois de tomar um esporro do meu professor por estar fazendo bagunça começou a chorar, o que fez todos os outros chorarem também, o que é comum entre eles, que têm dificuldade em agir individualmente, mas é claro que assusta. Quando a aula acabou, meu professor ainda em choque,o mesmo aluno se aproximou, sentou perto e ofereceu metade do pão da merenda pra ele, que sem alternativa, aceitou. O menino perguntou se ele poderia ser seu pai. Proposta aceita, claro. (Nessa hora todas as meninas da minha sala fazem “ohhhhnnn”).

Toda semana ele tinha que conversar com os pais das crianças, para acompanhar o desenvolvimento, a evolução, etc. O pai do André (é o nome do novo filho do meu professor), disse que dava tudo o que ele quisesse, mas que não queria levá-lo ao Maracanã. – esse pai tinha sido desenhado do lado de fora da casa - Nessa hora, começa o ataque... ”Nossa, que pai cruel, sem coração...” até de idiota chamaram o cara.


Não acho que seja bem assim. Não se pode jamais julgar um pai ou uma mãe por não se sentirem super empolgados com um filho deficiente. Acho louvável um professor universitário se dignar a passar três horas por semana com uma turma de quinze crianças e adolescentes, em que tudo pode acontecer. Por outro lado, é fácil chamar um pai de idiota por não querer levar o filho ao Maracanã e se oferecer pra fazer isso se sentindo o herói.

Pega o garoto limpinho e feliz em casa, leva ao jogo, ri um pouquinho dele, se emociona com aquela alegria fácil e realmente contagiante. Depois deixa na casa dos “idiotas” e volta pra sua casinha com a sensação de missão cumprida.

E quem limpou o menino? Quem lutou aquele dia e todos os outros pra controlar os ataques de fúria? Quem teve que se desdobrar pra colocar a camiseta numa criança que fica cada vez mais forte e maior? Quem passou nove meses sonhando com uma criança perfeita, imaginando os jogos de futebol, as conversas, os teatrinhos do colégio, a primeira namoradinha? Foram os idiotas. E serão eles até o fim. Ninguém sonha com intestinos descontrolados, tapas, ter que segurar a criança no ônibus ou no metrô pra ela não machucar ninguém, porque não tem noção dos seus movimentos.

Eles realmente são pessoas cativantes, são muito carinhosos, têm sempre aquele olhar que dá vontade de levar pra casa. Mas ninguém leva. Então, fica realmente difícil curtir essas coisas quando se tem que lutar tanto só pra manter aquele filho vivo.

Ninguém tem culpa da doença, muito menos a criança, que vai sofrer tanto com as suas limitações. Porém, eu deixo um conselho: não joguem pedras quando virem uma mãe visivelmente irritada com o filho ou quando ouvir um pai dizendo que não tem como prioridade exibi-lo para os amigos. Você nunca poderá saber o que essas pessoas já passaram e o que elas ainda passarão. Cada um tem seu tempo. Ás vezes acontece de simplesmente os pais não se conformarem.

É lógico que nem por isso eles têm o direito de maltratar a criança, que como eu já disse, sofre cada coisa que vocês não imaginam. Principalmente quando começam a tomar consciência de sua doença. Nesse caso, aí sim, não só critiquem como denunciem, procurem saber o que se pode fazer. Com certeza, ajudará muito mais do que dizer “oh, que fofo”, como se falasse de um cachorrinho e depois esquecer o assunto.

1 comentários:

lê disse...

Concordo quando diz que somente os pais sabem as dificuldades que têm, e que não cabe a ninguém julgá-los por suas atitudes. Concordo quando diz que é louvável um professor disponibilizar seu tempo para ensinar crianças que precisam de atenção especial. Concordo quando diz que ninguém tem culpa da doença, muito menos as crianças, e não merecem ser maltratadas por isso... Não acho que ter um filho com necessidades especiais seja uma experiência incompleta, mas admito não ser a melhor coisa do mundo passar “... nove meses sonhando com uma criança perfeita...”, como você mesma diz, e ver frustrado seu sonho. Acho tal relação mais completa que qualquer experiência vivida por pais e professores de crianças ditas normais. A mulher não deixa de ser mãe nem o professor deixa de ser educador pelo simples fato de o filho ou aluno não ser aquela criança que se encaixa nos padrões sociais comuns. As experiências se completa principalmente pelo fato de as pessoas envolvidas estarem vivendo convivendo harmonicamente ou não e, com toda a certeza, a convivência com crianças especiais tem muito mais carinho, muito mais afeto, muito mais sinceridade, muito mais amor que qualquer outra... E se essa é a base das relações desse tipo, incompletas são as experiências a que estamos acostumados a viver...