quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Crença


Eu estava no mar, no meio do mar. Via os barcos muito distantes de mim, mergulhava e levantava a cabeça em busca de ajuda. As águas me jogavam de um lado para o outro, me maltratando, me cansando.  Finalmente, um helicóptero chegava pra me salvar e eu me feria na hélice.  Alguém dizia: “você sobreviveu até aqui para se cortar justamente quando foi salva.”

Acordei assustada.

Olhei aquelas costas, tão dele quanto minhas. Largas, manchadas, grandes. Elas me traziam segurança.  Me senti protegida da hélice, do mar, do dia de trabalho que me esperava. Abracei e ele apertou minha mão. A televisão ligada passava uma luta atrás da outra e eu odiava, mas aguentava aquilo toda noite pra não ser chamada de chata, de fresca, de implicante.

Eu aguentava tudo.

Lembrei da nossa última briga. O ódio com que ele me olhava, me acusava, me xingava, atirava palavras e objetos. Não aceitava que eu tivesse ficado com outro homem enquanto estivemos separados. Eu me culpava, chorava e ele me mandava engolir o choro, dizia que piranha não tem o direito de chorar. Eu tentava segurar, me conter, me acalmar, me desculpar.

Eu tentava sempre.

Eu pedia pra ele me perdoar, dizia que fiz porque queria esquecê-lo, que não aguentava mais as traições, as dores, os maus tratos. Que estava sozinha, ele estava com outras mulheres também. E ele não me ouvia. Dizia que eu não merecia aquele amor.  Gorda, antipática, feia, sem graça. Eu devia agradecer todos os dias por ter alguém ao meu lado,  devia me desculpar todos os dias pelo que fiz.  Ninguém estava ao meu lado, só ele.

Eu acreditava.

Lembrei do outro. Pensei que talvez tivesse sido um erro ter feito essa escolha. Ele me beijava, me prometia que eu esqueceria tudo o que passei, que seria feliz ao seu lado. Percebia cada parte do meu corpo, do meu rosto, os olhos brilhavam quando me via, me abraçava. Chorava quando eu dizia ter dúvidas, quando me sentia culpada. “Você está solteira, não tá fazendo nada de errado”. Eu não pensava assim, era  um cachorro adestrado, medroso. Ele dizia: “Fica comigo”. E eu não fiquei.

Eu escolhi.

Me senti culpada por lembrar. Eu era uma traidora mesmo, pensei. Ele se mexeu. O sono tranquilo me trazia paz e medo. Se ele acordasse ficaria bem irritado. Pra minha surpresa, ele acordou, me olhou. Arregalei os olhos de susto. Ele me puxou, tirou o cabelo do meu rosto, disse que me amava, me aninhou, dormiu de novo. Fiquei imóvel, sorri, queria dizer que o amava também, me desculpar por todo o mal que eu causei, que queria ficar com ele pra sempre. Eu era amada. Ele me amava. Talvez tanto quanto eu o amasse. Ele amava a gorda, talvez  ele tivesse reparado meu esforço de ser simpática, de agradar as pessoas que ele gostava. Talvez eu merecesse aquele amor, finalmente.

Eu era amada.

Não consegui dizer nada. Com cuidado, me livrei dos seus braços,  levantei da cama. O dia estava amanhecendo. Olhei o rosto de novo, tão bonito, o feixe de luz iluminando a bochecha. Me olhei no espelho.  Sim, talvez eu merecesse amor. Me vesti e fui buscar o amor que eu merecia.