quinta-feira, 6 de novembro de 2008

"It's something unpredictable,but in the end it's right..."

Eu sempre fui a favor do aborto. Agora, grávida de oito meses, posso dizer que nunca tive tanta certeza da minha posição. Eu imagino que seja chocante para muitas pessoas lerem isso, e os mais fervorosos provavelmente me chamarão de assassina, ainda que eu esteja carregando o maior amor do mundo dentro de mim.

É justamente por estar amando tanto esse monstrinho, sem ao menos tê-lo visto ao vivo, que eu defendo o aborto. Filhos devem vir ao mundo quando são muito desejados. Conheço histórias de pessoas que engravidaram acidentalmente e hoje são mães e pais espetaculares. Entretanto, conheço muito mais histórias de pessoas que não ficaram satisfeitas com a notícia... e não estão até hoje.

Ao contrário do que as românticas pensam, são nove meses terríveis de enjôos, dores nas costas, órgãos espremidos, privações, pernas inchadas, inteligência emocional zerada e riscos diários... que só são compensados pela alegria de sentir os chutinhos, de acompanhar o desenvolvimento do bebê, imaginar o rostinho, as mãozinhas, pezinhos... coisas que só uma mãe muito feliz com a gravidez vai sentir.

Com certeza o aborto é uma experiência horrível e é muito difícil engravidar hoje em dia, com tantos métodos preventivos. Mas acontece, e não adianta querer ameaçar os pais com aquelas frases estúpidas: “ Brincou de médico, agora vai ter que brincar de papai e mamãe”. Uma vez grávida, não tem volta. E para os que pensam que estão “castigando” os pais, possivelmente estão condenando uma criança a viver como um fardo.

Além disso, quantas meninas morrem por ano com abortos alternativos? São remédios que causam hemorragia, chás de coisas inimagináveis e até agulhas de crochê. Na melhor das hipóteses encontram um açougueiro disposto a fazer o aborto... e ele acaba tirando coisa demais lá de dentro. E de que adianta uma lei que diz que é crime, se qualquer um com um pouquinho mais de dinheiro faz com toda a segurança em qualquer clínica clandestina, com médicos de verdade?

Fazer um aborto depois dos três meses, realmente é sacanagem. O bebê já sente a mãe, os dois já estão ligados. Quando se faz antes disso, não acho que a mulher esteja matando alguém. Posso estar errada, e talvez nunca saibamos ao certo quando começa uma vida, mas pra mim é quando o feto passa a ter consciência de si, e não acredito que isso aconteça tão cedo, por mais bonitinho que possa parecer.

Um filho liga duas pessoas por bastante tempo. Um casal que não se gosta o suficiente ou que por algum motivo não pode ficar junto é obrigado a conviver durante anos, ligados por uma criança inesperada. Mais do que nunca, hoje eu vejo o quanto é importante ter do lado alguém que apóie a mãe, que deseje o bebê tanto quanto ela. Fico triste só de pensar nas mulheres que passam por tudo sozinhas, ou com uma presença masculina absolutamente dispensável, que faz questão de assim permanecer.

É idiotice pensar que a mulher não se importa, que fará quantas vezes forem necessárias. Por mais que existam mulheres bem frias e inconseqüentes, é muito difícil passar por esse processo sem ficar machucada, marcada. Algumas mais, outras menos. Eu sinto muita pena, e não raiva de quem precisa passar por isso, e realmente acredito, mesmo que pareça um pensamento infantil, que de uma forma ou de outra essa criança virá pra perto da mãe um dia, e ela poderá recebê-lo com todo o carinho que provavelmente não pôde oferecer antes.

4 comentários:

Fef disse...

Esse assunto é muito tenso, mas eu não tinha pensado ainda por esse lado..

leandro disse...

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Marcio Sarge disse...

Parabéns pelo filho e pela convicção.

Laila disse...

Às vezes é tão estranho ver um ponto de vista assim diferente, inusitado.
Leva a gente a uma reflexão, seja para mudar de idéia ou para ficar mais convicto do que pensava antes.