terça-feira, 22 de setembro de 2009

Na livraria

Eu nem sabia direito o que estava fazendo ali. Passei horas encarando os livros. Folheava alguns, em outros apenas passava as mãos, para sentir a textura da capa. O segurança me olhava de um jeito desconfiado e a sensação de parecer suspeita me deixava desconfortável, mas me sugeria um pouco de desafio. Ele não podia falar ou fazer nada, apenas pensar, duvidar do meu caráter, sugerir à vendedora que ficasse de olho em mim, mas não podia mesmo fazer nada, porque não sabia quem eu era, o que eu poderia fazer. A verdade é que eu não poderia fazer nada mesmo, mas ele também não sabia disso.

Eu nunca roubei nada. Quando era mais nova, me faltava coragem; todas as meninas do colégio entravam nas lojas, socavam os bolsos de canetas e chocolates e saíam triunfantes. Trocavam entre si, davam de presente para outras meninas, mas nunca me davam nada. Diziam que era para que eu deixasse de ser covarde. Eu ficava com raiva e chorava, trancada no banheiro da escola. Com o passar dos anos, algumas cansaram, outras foram descobertas pelas mães e eu não precisei mais tentar criar coragem.

Ali, na livraria, minha única intenção era irritar o segurança. Eu me sentia fraca e deprimida, tinha escolhido aquele lugar para fugir de tudo o que me atormentava do lado de fora. Não era justo que ele me olhasse com toda aquela desconfiança, eu merecia um pouco de pena, pelo menos pela minha aparência triste e cansada. Eu sentia pena de mim, e ao contrário do que minha mãe costumava dizer, isso não era ruim. Aliás, foi a melhor sensação que eu tive naquele mês.

Eu já tinha me cansado da brincadeira, agora a cara sem expressão do segurança é que estava me irritando. Resolvi me arrastar até o café e tomar alguma coisa.

Assim que eu sentei, ela apareceu. Era bonita; cabelos louros, menos lisos que os meus, mais alta do que eu, mais magra do que eu. Eu mal conseguia pensar. Reparei na roupa: ela estava vestida da forma mais elegante que não poderia estar naquele dia. Um vestido leve, a sandália alta que deixava os pés bem feitos a mostra. Uma medalha pequena em um cordão finíssimo. Olhei pra mim: desarrumada, meus cabelos estavam sem vida, a franja grudada na testa, cheia de bijuterias que disfarçavam a minha falta de brilho. Vestia quase um pijama. Senti vontade de chorar, mas nenhuma vontade de ir embora. Eu queria ficar ali o máximo de tempo que eu pudesse, só contemplando aquela pessoa que não sabia a importância que tinha na minha vida.

Ela parecia calma e extremamente feliz. Passava a impressão de nunca ter passado por qualquer problema, que nunca tinha se preocupado, pensado se as coisas são mesmo da forma como ela pensa que são ou se perguntado se era mesmo amada. Ela inspirava certezas e eu tinha a resposta para todas as dúvidas que ela deveria ter. Ou achava que tinha.

Senti vontade de chegar mais perto. Quando levantei, minhas pernas tremiam de forma vergonhosa. Caminhei devagar. Eu estava sentindo uma dor terrível no peito, umas pontadas fortes. Não é nada, só tensão – eu pensei – e me debrucei no balcão da forma mais corajosa que consegui. Estávamos separadas por uma pilha de livros em promoção.

O vestido era ainda mais bonito de perto, todo delicado e esvoaçante. O decote era bem grande e por um instante eu fiquei imaginando como eram os seus peitos, os peitos que ele via, que ele beijava e admirava. Um enjôo forte tomou conta de mim, me fazendo engasgar.

Ela me olhou.

Os olhos verdes, lindos, me encaravam e eu não conseguia desviar o olhar.

Dividíamos o mesmo homem. O mesmo homem havia olhado nos meus olhos escuros e naqueles olhos. Ouvíamos os mesmo suspiros, a mesma voz, a mesma risada. O mesmo homem pedia para ser beijado por nós duas. Será que ele pedia daquele jeito pra ela também? O mesmo homem era amado por duas mulheres que estavam frente a frente e uma delas não imaginava a importância daquele momento.

E eu tinha imaginado, muitas vezes. Que injustiça, eu pensei.

Agora, ela estava ali na minha frente e eu não sabia o que fazer. E se eu contasse tudo? Ele não queria mais nada comigo, me maltratou, disse que eu estava velha demais pra isso, disse pra eu tomar jeito, ficar com a minha família. Como se eu tivesse passado tantos anos com ele por libertinagem, por falta de vergonha na cara, só pra desrespeitar meu marido, meus filhos. Como se essa paixão que eu sinto, que não larga de mim, que me atormenta e não me deixa viver, fosse escolha minha.

Eu era bonita, que nem ela. Eu era uma promessa. Todo mundo falava que eu ia ser um espetáculo de mulher, que eu ia ter sucesso no que eu escolhesse pra fazer. E eu podia ter escolhido qualquer coisa mesmo. Mas escolhi esse homem, e achei que ele podia fazer parte da minha vida extraordinária, e ele nem teve essa chance porque essa vida passou longe de mim.

Decidi não contar nada, e nem foi por ele. Minha covardia me fez pensar que se eu contasse, ele ia querer se vingar e contar tudo pro pessoal lá de casa também, e isso eu não ia agüentar, eu nunca tive medo de acabar sozinha, porque pra mim essa possibilidade nunca existiu. Mas naquela hora eu senti medo, aí não contei. Além disso, eu pensei nela, juro. Imaginei a reação, o susto, a decepção, a cara de surpresa, o choro... E me senti tão culpada que a pontada veio mais forte do que da outra vez.

Coloquei a mão no peito. Doía tanto que eu tive que apoiar a outra mão no balcão e acabei derrubando uma pilha de livros no chão. Ela se assustou e ficou me olhando. Tentei abaixar pra catar tudo, mas foi ainda pior, eu já não conseguia respirar e caí no chão. Que vergonha, eu pensei. Quanto mais força eu fazia, mais doía e eu não conseguia respirar de jeito nenhum. Vi quando ela pegou o celular e chamou a ambulância. Apaguei por alguns minutos.

A primeira coisa que eu vi quando acordei foi um par de olhos enormes que sorriam pra mim. Olhei pra baixo e comecei a chorar quando percebi que ela segurava a minha mão.Eu só chorava, não conseguia dizer nada e ela afagou os meus cabelos, tirou minha franja dos olhos e repetia "Vai ficar tudo bem, tudo bem".Eu me senti enlouquecer, comecei a prestar atenção no carinho dela e na voz, só pra sentir exatamente o que ele sentia quando ela encostava nele. As mãos macias, a voz suave, tudo doía demais. A ambulância parou, ela desceu, os médicos me puxaram. Eu estava totalmente imobilizada, tinham me amarrado na maca indigna.

Do lado de fora, meu marido me esperava. Ela foi até ele, trocaram umas palavras,só consegui ouvir o agradecimento.Ele a abraçou. Ela voltou, se debruçou e sussurrou no meu ouvido: “Seu marido está aí, fique com ele.”.

E eu fiquei.

8 comentários:

Rafa disse...

Arrasou, como sempre.

Laila disse...

Faço minhas as palavras do comentário acima.

Maria Fernanda disse...

Livro, livro, livro! Já!!!
Até imaginei um título, você acredita? Super intrometida, né???

Bessitos para ti, escritora!!!

Luiza Franco disse...

Já te disse que esse foi um dos melhores, né?? Amei!

Yana disse...

Nem acredito que saiu e saiu tão condizente com tudo aquilo que você sente. Estou muito orgulhosa de ser amiga de uma escritora fantástica que ainda vai se descobrir ainda mais amante imaginária, mãe, amiga e mulher do que na verdade já é.

Não pare nunca, está genial!

beijos.

Maria disse...

Nossa, Antônia, que história fantástica. Bem escrita, estimulante, sensível. Faz a gente sentir tudo que ela estava sentindo, até doeu o peito.

Meu beijo

Anônimo disse...

Your blog keeps getting better and better! Your older articles are not as good as newer ones you have a lot more creativity and originality now keep it up!

Anna Carolina disse...

Lindo demais Antônia!
PARABÉNS, A HISTÓRIA É FASCINANTE!

Beijos.